• Você tem fome de quê?

    Written by Rannison Rodrigues

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    A famosa música dos Titãs nos provoca: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. E, na vida profissional, a pergunta permanece. Do que temos fome? Será que somos forçados a comer? É possível que comamos demasiadamente, mas nos alimentemos muito pouco? Seriamos viciados em “junk food” na vida profissional?

    Se essa “fome” ou “sede” for renomeada para “propósito”, o que diríamos sobre o que queremos? Você já pensou nisso? Em recrutamento, o mais comum é encontrar profissionais em busca de um emprego. Embora isso possa parecer óbvio, se você leu com atenção, reparou no “o mais comum é…”. Porque em recrutamento também é frequente encontrar pessoas buscando um propósito, uma razão de ser. E isso nem de longe é um exagero.

    Por diversas vezes tive a oportunidade de conversar com pessoas que sabiam fazer coisas, mas não sabiam porque faziam. Não sabiam se gostavam daquilo também, mas o importante era ter um bom salário, boa reputação e conforto assegurado. É uma estratégia. Na verdade, quase sempre, essa é “A Estratégia”. E não tem nada de errado com ela.

    Conheça o Antônio

    No entanto, ao longo dos anos difíceis que o Brasil viveu recentemente, também vi muitas pessoas passando por situações adversas. Dessas muitas pessoas, tive a oportunidade de acompanhar a história do Antônio (vou chamá-lo assim). Foi essa história que me levou a escrever esse texto. Porque a história dele também mexeu com a minha história.

    Antônio era o CFO de uma indústria multinacional. Ele fala 4 idiomas, tem MBA fora do Brasil, uma carreira sólida e uma reputação irretocável no mercado. Quando nos conhecemos ele tinha uma remuneração bastante agressiva, benefícios compatíveis ao cargo, quase 100 pessoas sob gestão e alguma coisa no olhar que eu não consegui detectar de pronto.

    Conversamos, eu e ele, por quase 2 horas. Ao final da conversa, quando estávamos quase nos despedindo, perguntei a ele, entre amenidades, o que ele mais gostava no trabalho que fazia. Lá veio aquele olhar de novo. A resposta evasiva e diplomática foi “são tantas coisas, que teríamos que pedir outro café e sua agenda não permitiria”. Rimos, nos despedimos e mantivemos contato.

    Quase um ano depois, o Antônio foi desligado durante uma reestruturação e me perguntou se poderíamos tomar um café. Mesmo sem uma vaga específica para ele, nos encontramos. Ele me contou dos últimos acontecimentos, a reestruturação, sua saída, seus horizontes, sua preocupação…tinha descoberto poucas semanas antes que sua esposa tinha câncer. E ali, entendi o que eu tinha visto nos olhos dele no nosso primeiro encontro: era tristeza.

    Fiz o que pude para ajudar o Antônio a se recolocar. Sempre que possível, eu o apresentava em processos seletivos. Ele participou de alguns. Mas, por motivos variados, infelizmente, acabou não se recolocando (talvez também percebessem a tristeza dele). A frustração dos “nãos” consecutivos fez aquela sombra nos olhos do Antônio aumentar por mais algum tempo, mas ele não se entregava e eu admirava aquilo.

    Aproximadamente 7 meses depois de nosso café, liguei para o Antonio falando de um processo seletivo. Dessa vez, ele não atendeu esperançoso. O que ouvi foi “Obrigado por não desistir de mim, meu amigo. Mas minha esposa morreu hoje de manhã e não estou em condições de fazer entrevistas, me desculpe.” Nessas horas, o que se fala para fazer alguém sentir-se melhor? Por alguns segundos fiquei mudo. Ofereci minhas condolências e desliguei o telefone estonteado.

    Antônio, eu sabia, estava numa situação em que nada nem ninguém no mundo poderia realmente ajuda-lo. Nem um emprego novo, nem um belo pacote de benefícios, nada disso. Estava num mar de tristeza, sem dúvida. E pensei naquela tristeza que vi nele quase dois anos antes, durante nossa primeira entrevista. De onde ela vinha? Descobri 3 meses depois.

    Após esses 3 meses recluso, Antônio, que era apaixonado pela esposa (com quem foi casado por 26 anos), decidiu mudar. Com 50 anos de idade, muitos no lugar dele não fariam o mesmo. Mas ele não é, nem de longe, uma pessoa comum. Me mandou um e-mail convidando para um almoço. E lá fui eu almoçar com ele. Dessa vez, percebi outra coisa nos olhos do meu amigo. Isso é alegria, pensei.

    Almoçamos em clima descontraído e durante todo o almoço evitei o tema da esposa dele, mas foi ele quem puxou o assunto, entre tantos outros, falando de como tinha sido difícil e de como aquela situação o tinha feito repensar. Parou de fumar, perdeu bastante peso, mudou de apartamento, recusou algumas propostas de emprego… Eram propostas inadequadas? Segundo ele, sim. Ótimos salários, ótimos benefícios e ótimas oportunidades de ficar trancado em um escritório pelo resto da vida.

    Fiquei surpreso. Ele percebeu e me disse que não aguentava mais ser exemplo para tanta gente e se sentir tão mal. Tantos queriam alcançar o que ele tinha alcançado, e ele mesmo percebeu que não queria aquilo. “Por que? É uma bela carreira, Antônio! Você tem muito do que se orgulhar”, retruquei eu. “É verdade, mas orgulho e felicidade nem sempre andam juntos, Rannison. E hoje, eu não trocaria nenhum segundo da minha felicidade por anos de orgulho.”

    “E você não fica feliz em ter conquistado tudo o que conquistou?”, insisti. “Fico, mas nem tanto assim, sabe?! Conquistei essas coisas por causa dos outros: dos amigos, da família, da sociedade. Queria alcançar o que me diziam que era ser feliz e reconhecido: comprar coisas. Mas hoje sei que fiz pelos motivos errados. Não amava isso. Não fiz por mim. Sempre fui bom de matemática, mas o que eu gostava mesmo era de ensinar. Por isso me tornei gestor com tanta naturalidade, eu acho.”

    E lá estava eu, de frente para um dos CFOs que eu mais admirei durante a minha carreira como headhunter, ouvindo dele mesmo algo como, “Ser CFO não é pra mim”, ou melhor, “nunca foi”. Fiquei chocado por alguns instantes e ele percebeu novamente, mas mudou de assunto. Me contou que dali em diante seria professor e que estava muito animado com os novos desafios. O convidei para outros processos seletivos depois disso. E, cordialmente, ele sempre me lembrou que agora era professor.

    A tal da fome

    O almoço aconteceu 4 anos atrás. Anteontem, encontrei de novo com o Antônio, mas dessa vez estávamos correndo, literalmente. Subindo a estrada das paineiras, ouço alguém me chamando. Olho para trás e dou de cara com o Antônio em trajes esportivos, com um sorriso enorme no rosto. Fomos correndo juntos e durante nossa conversa ofegante, contei, eu dessa vez, os meus causos e ele me ouviu pacientemente.

    Depois de ouvir alguns quilômetros de atualização, ele também me atualizou por outros tantos. No final, me convidou para um suco. Sentamos à mesa e ele arrematou: “Você tem fome de quê?”. E eu respondi que só ia querer um açaí mesmo. Ele riu e repetiu a pergunta de outro jeito. “Quando você sobe aquela ladeira, você sente o que? É uma ladeira dura, é cansativo, é desconfortável. E você estava sozinho, não tinha ninguém subindo do seu lado. Se eu não aparecesse, você iria sozinho! Por que então sobe e desce, e depois faz tudo de novo outro dia?”.

    Eu sabia que ele já sabia a resposta, afinal estava fazendo o mesmo que eu, mas percebi que tinha um ensinamento ali me esperando, e respondi: “Sinto prazer, uma alegria enorme”. Ele assentiu com um sorriso e disse: “Lembra daquele nosso almoço? O que eu te contei naquele dia é igual àquela montanha. Fazer o que te faz feliz pode ser desconfortável, muita gente não vai entender e quase ninguém vai te acompanhar no caminho. Mas quando você sabe porque está fazendo, sente essa alegria imensa. Eu era só uma pessoa subindo a montanha porque os outros disseram que era legal, e não sentia essa alegria. Naquela época, acho que você não entendeu quando te disse que queria mudar de carreira. Hoje eu é que te pergunto: Você tem fome de quê?”

    Autoconhecimento

    Por muitos dias essa pergunta ecoou nos meus ouvidos. Como, em um mundo com cada vez mais conhecimento e informação, sabemos tão pouco sobre nós mesmos? Como é possível e o que isso provoca em nós a longo prazo (não só como indivíduos, mas como sociedade)? Em uma época em que muitos empregos deixarão de existir em função de avanços tecnológicos, o que resta para as pessoas além de produzir? O que nos move? O que te move? Qual é a sua montanha? Afinal de contas, você tem fome de quê?

     

    Rannison Rodrigues LinkedIn (https://bit.ly/2OtVbBk)
    Rannison Rodrigues   LinkedIn (https://bit.ly/2OtVbBk)

     

     

Alice Árabe

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