• A liberdade é o nosso bem mais precioso

    Nossa tradição matriarcal valoriza muito a liberdade individual. Mas nossa estirpe de filosofia oriental nos induz a valorizar também a disciplina. Como equacionar essas duas forças aparentemente antagônicas?

    A conciliação entre elas encontra-se na recomendação: A liberdade é o nosso bem mais precioso. No caso de ter que confrontá-la com a disciplina, se esta violentar aquela, opte pela liberdade.

    O postulado da Gestalt nesse aspecto è genial quando ensina: “você não existe para me agradar; eu não existo para lhe agradar. Se, apesar disso, agradarmo-nos mutuamente, poderemos conviver. Se não, seguiremos separados.” Você não acha brilhante?

    Extraído do livro Método de Boas Maneiras do escritor DeRose.

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  • A influência do grupo na prática

    Às vezes estamos praticando sozinhos, em casa, e pensamos “Já está bom, suficiente! Foi um bom esforço… estou satisfeito”. No entanto, ao voltar da técnica e conferir o relógio, descobrimos, não sem uma certa decepção, que a permanência tinha ficado aquém do satisfatório.

    Acontece com uma certa frequência essa espécie de auto-condescendência. Pode nos levar anos de treinamento e disciplina para poder aplicar uma verdadeira atitude de autossuperação na prática individual.

    No entanto, temos uma ferramenta bem simples para contribuir neste sentido: praticando em grupo, temos a orientação de um professor que determina o ritmo e as permanências. Soma-se também o impacto de estar rodeado de outros praticantes executando a mesma técnica. Quanto mais o grupo se esforça, melhor é o resultado coletivo. Por outro lado, se um desiste e volta, gera o mesmo impacto de influência em sentido oposto: o rendimento de todos cai.

    A prática em grupo, quando feita com empenho e compromisso, tem esse poder de reeducação. Instala-se em nós uma verdadeira atitude de autossuperação que o próprio compromisso com os colegas de turma nos inspira.

    Aproveite o embalo e intensifique, catapulte as suas práticas!

    Texto da Profa. Melina Flores.
    www.melinaflores.org
    @meliflor81

    Remo-Esporte

  • O Velho Sábio

    Em algumas cidades no Brasil, comemora-se em 15 de outubro o Dia do Professor, noutras, o Dia do Mestre. Ser professor é uma carreira tão respeitada em outros países que no Japão, por exemplo, a única pessoa a quem o imperador faz reverência é o seu professor. Na Índia, são tratados como uma classe superior, pois detêm o conhecimento.

    Mestre-por-Flávio-Moreira

    O Velho sábio – capítulo do livro Eu me lembro – DeRose

    Certa manhã, fui tirar leite de nossa búfala, que pastava solta perto das margens do rio. Caminhando pelo campo com os pés descalços na relva molhada pelo orvalho da noite, tão absorvido estava que passei pelo animal e segui em frente. Pouco adiante, encontrei um velho sábio, sentado olhando para as águas que seguiam montanha abaixo. Cumprimentei-o e perguntei o que estava observando. O ancião me disse que estava observando seus pensamentos. Sentei ao seu lado e, como uma criança, sem nada questionar comecei a fazer o mesmo. Passaram-se várias horas e lá estávamos os dois, lado a lado, sem dizer palavra. Porém, entendendo-nos perfeitamente bem.
    Até que, em dado momento, o ancião virou-se para mim e começou a falar.
    – O que você observou?
    – Meus pensamentos.
    – Gostou?
    – Sim.
    – De que natureza eram?
    – De todos os tipos. Pensei nas águas, obedientes, que seguem fazendo as ondas no mesmo lugar, apesar de serem sempre outras. Depois, pensei na nossa vida, que também é assim. Somos sempre outras e outras pessoas a nascer, crescer, trabalhar, casar… mas seguimos fazendo as mesmas coisas sem que ninguém nos obrigue a isso. Daí pensei nas nossas ovelhas, cabras e vacas, que também seguem fazendo as mesmas coisas desde que nascem, até que morrem. E seus descendentes continuam fazendo as mesmas coisas. Qual o sentido de tudo isso?
    – Você se fez essa pergunta?
    – Fiz.
    – E qual foi a resposta?
    – Não obtive resposta, pois meu pensamento seguiu os pássaros e mudou continuamente. Mas gostei da experiência.
    – Então volte amanhã e vamos contemplar o rio juntos outra vez.
    Assim o fiz. Durante muito tempo retornei e sentei-me ao lado do ancião. Era uma relação de amor. Desde a primeira vez que o vi, senti um carinho arrebatador por aquele mestre. Olhava-o com admiração gratuita, pois ainda não o conhecia suficientemente bem. Não sabia o universo de sapiência que ele tinha para me transmitir. Era simplesmente amor, desinteressado, a primeira vista.
    Quase sempre ficávamos calados por muito tempo. Geralmente, no final, ele fazia algumas perguntas. Depois de uns quantos meses, notei que suas perguntas era o que me permitia tomar consciência de quão profundo havia ido na viagem interior.

  • O pôr-do-sol

    Quando o sol se punha, todos parávamos o que estivéssemos fazendo e ficávamos em pequenos agrupamentos observando o crepúsculo. As famílias se reuniam, as crianças se encarapitavam nos ombros dos mais velhos ou no colo dos pais. Os casais se acolhiam e se acariciavam.

    Essa era a “hora de fazer as pazes”, se alguém ainda estava ressentido com alguma coisa; era também a hora de recitar poesias, quase sempre compostas de improviso, ali mesmo. Sempre foi muito fácil para o nosso povo compor poemas de amor, ao pôr-do-sol, pois os rostos ficavam docemente iluminados pelo alaranjado do sol poente.

    Não tínhamos noção do que era aquele disco luminoso no céu, mas sabíamos que era lindo e que devíamos a ele nossa vida, a luz que nos iluminava, o calor que nos aquecia no inverno. Não imaginávamos que fosse alguma divindade e sim um fenômeno natural como o raio, o trovão ou a chuva, e o reverenciávamos com um grande respeito e afeto.

    Texto extraído do livro: Eu me lembro… – DeRose

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    Foto de Melina Flores, em Rishkesh
    @meliflor81

  • A prática projeta-se para o dia a dia

    O praticante mais iniciante gosta das técnicas que está aprendendo e envolve-se com a vivência dentro da sala de aula; porém ainda não tem a experiência e o tempo de assimilação suficientes para continuar aplicando o que aprendeu fora dela.

    Mas a disciplina na prática dá os seus frutos e um belo dia ele percebe que está movimentando-se pelo mundo de forma mais consciente: ao subir uma escada – mantendo a consciência na respiração; ao fechar uma porta – agora com mais sutileza; ao caminhar pela praia ou pelo parque – utilizando ainda uma respiração ritmada sincronizada com os passos; ao fazer um trekking – e chegar ao topo da montanha vitalizado; ao correr para entrar no metrô – e sentir a musculatura descansada e forte a qualquer momento do dia, sem necessidade de aquecimento.

    Essas descobertas tornam-se importantes para estimular o iniciante a continuar se dedicando à prática, certo agora das transformações que estão acontecendo.

    Sendo assim, da próxima vez que você sentar na frente do computador para trabalhar, sente-se em ásana; quando estiver em pé na fila do supermercado, permaneça em ásana; ao deitar para dormir, ou descansar… deite-se em ásana. Deixe que a prática, que você faz talvez apenas duas vezes por semana com o seu instrutor, simplesmente se espalhe e cresça no seu dia a dia!

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    Capítulo do livro Inteligência Corporal, da Profa. Melina Flores – @meliflor81